O DIA SEGUINTE | 12 DEZ | IPDJ | 21H30



O DIA SEGUINTE 
Hong Sangsoo
Coreia do Sul, 2017, 92’, M/12

FICHA TÉCNICA
Título Original / Internacional: Geu-hu
Realização e Argumento: Hong Sangsoo
Montagem: Hahm Sungwon
Fotografia: Kim Hyung-koo
Interpretação: Min-hee Kim, Hae-hyo Kwon, Saebyuk Kim, Yunhee Cho
Origem: Coreia do Sul
Ano: 2017
Duração: 92´
 
FESTIVAIS E PRÉMIOS 
Festival de Cannes – Selecção Oficial, Competição




CRÍTICA
 
As histórias mais antigas e mais repetidas do mundo: homens e mulheres, o que se passa entre eles, as maneiras como eles explicam o que se passa entre eles — tudo isto é magnífico.
Hong Sang-soo filma que se desunha (esta é a 21ª longa-metragem em 21 anos) e filma cada vez mais depressa (este é o quarto filme desde o último dele que por cá se tinha estreado, Sítio Certo, História Errada, de 2015). Conseguir acompanhar este ritmo exige alguma ginástica e muitos expedientes ao espectador “hong-ófilo”, até porque a distribuição portuguesa ainda não “sistematizou” a sua relação com o cinema dele — O Dia Seguinte é apenas o quarto filme de Hong mostrado comercialmente em Portugal e, como vimos, ficou um “buraco” de três filmes entre este e a estreia precedente.
Se insistimos nisto é porque esse acompanhamento regular é uma necessidade quando se trata dos filmes do coreano, porque ninguém como ele hoje encara a obra como uma sucessão de variações, às vezes minimais, em torno dos mesmos temas e dos mesmos motivos, na prática como um longo filme a que cada novo título vem acrescentar alguma coisa mas nunca “interromper” ou “mudar”. Razão, também, por que não faz sentido distinguir entre Hongs “maiores” ou “menores”, porque eles são sempre “a mesma coisa” e porque integram uma “coisa” maior, que é o conjunto.
Pouco importa, portanto, que O Dia Seguinte tenha sido recebido internacionalmente com menos fragor do que outros Hongs recentes. O prazer é o mesmo de sempre, o prazer de uma elegância despojada, cada vez mais reduzida ao essencial (damos um doce a quem encontrar um grama de “gordura” em O Dia Seguinte, uma sequência, um plano, um segundo de filme que esteja lá para encher), e que existe para se ver e para se ouvir — o sentido do filme não existe no seu relato a posteriori, os temas do filme não propiciam nenhuma discussão lancinante sobre os grandes temas que cativam o pensamento contemporâneo, e tudo é questão de matéria e materialidade, aqueles actores, aqueles diálogos, aqueles cenários, aquelas situações filmadas naqueles enquadramentos. É um cinema quase casmurro na sua obstinação ensimesmada e na sua aparente futilidade, e isso é o que ele tem de mais maravilhoso e, nos dias que correm, de quase único. 

E portanto lá vamos nós, em O Dia Seguinte, para as histórias mais antigas e mais repetidas do mundo: homens e mulheres, o que se passa entre eles, as maneiras como eles explicam o que se passa entre eles. O protagonista masculino (desta vez, em inversão do que acontecia por exemplo em A Nossa Sunhi, é um homem e três mulheres) é um editor e crítico literário em crise matrimonial. Na primeira cena, a primeira das várias cenas de diálogo que são a ossatura do filme, normalmente com as personagens sentadas à mesa com alguma comida e sobretudo muito soju (o álcool é sempre o protagonista líquido dos filmes de Hong), a mulher do editor desafia-o a confessar que tem uma amante. Ele não consegue, mas é óbvio que tem, como logo a seguir se percebe, e o tema da “cobardia masculina” fica imediatamente lançado como signo de O Dia Seguinte (depois, numa grande e alcoolizada cena com a amante, que é sua assistente na editora, e numa daquelas cenas, tipicamente Hong, em que tudo é muito cómico e muito dramático em simultâneo, a discussão sobre a cobardia dele será levada a um paroxismo — “sorris e nem sequer estás feliz”).
Para complicar a coisa, há uma assistente nova, a bem conhecida Kim Min-hee (vedeta do mais popular cinema coreano, protagonista de The Handmaid de Park Chan-Wook, que causou um grande escândalo na Coreia ao tornar-se namorada de Hong), que no seu primeiro dia de trabalho na editora é confundida, pela mulher do editor, com a amante dele, lançando um cómico drama, ou uma dramática comédia, de quiproquós e mal-entendidos. No primeiro diálogo entre o editor e a nova assistente, o soju tinha proporcionado uma animada discussão sobre a “realidade” e os “discursos sobre a realidade”, coisas que, explicava o editor, existem “em planos diferentes”. De certa forma, esse diálogo é o resumo do filme, que deixa os “acontecimentos” mais determinantes em elipse e apanha as personagens no momento em que os justificam ou teorizam sobre eles — é a “cobardia” das palavras, que podem ser mentirosas, que podem ser desculpas, que podem ser, só, o produto de uns copos de soju a mais.
Tudo isto é magnífico, claro, servido pelos actores com uma graça prodigiosa, encenado por Hong num minimalismo entrecortado pelos mais heterodoxos movimentos de câmara do cinema contemporâneo.
Resta dizer que a personagem mais mal tratada é a do homem, e que a mais bem tratada, a mais livre, é a de Kim Min-Hee: é a ela que Hong oferece a cena mais bonita e mais feliz, a neve a cair tornada um espectáculo apreciado através da vidraça do táxi.
Luís Miguel Oliveira, Público



O QUADRADO | 5 DEZ | IPDJ | 21H30



O QUADRADO
Ruben Östlund
SE/DE/FR/DK, 2017, 142’, M/14

FICHA TÉCNICA
Título Original: The Square
Realização e Argumento: Ruben Östlund
Montagem: Jacob Secher Schulsinger e Ruben Östlund
Fotografia: Fredrik Wenzel
Interpretação: Claes Bang, Elisabeth Moss e Dominic West
Origem: Suécia, Alemanha, França, Dinamarca
Ano: 2017
Duração: 142'
 

FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Cannes - Palma de Ouro
Festival de San Sebastián - Selecção Oficial
 

  
CRÍTICA
Ruben Östlund filma os seus filmes com uma certa intenção, uma provocação no qual tenta debater-se com a consciência moral do espectador. Se em Força Maior, especificaria o medo como uma catarse ao rompimento de uma relação, em O Quadrado somos ainda levados ao extremos nessa encruzilhada de decisões. “E se fosse consigo?” - mais do que um programa pedagógico, Östlund perpetua uma tragédia cómica minada de experiências que vai de encontro aos nossos próprios medos, provavelmente o maior dos medos sociais, o de agir na altura certa.
Em paralelo com a avalanche de Força Maior, em O Quadrado assistimos a uma particular sequência de uma arte performativa levada ao extremo, a besta que encarna no homem-artista e a manada indefesa que encarna numa multidão intelectualmente homogénea. A situação torna-se tão drástica que nós próprios [espectadores] questionamos a nossa experiência, a impotência nos nossos ativismos, e o desprezo pelo próximo como um mecanismo de defesa. Nessas ditas situações, O Quadrado envolve-nos com uma tese psicológica desafiadora, um filme revoltante … silenciosamente revoltante que poderá dizer mais de nós que qualquer divã. E esse quadrado, engenho simetricamente perfeito que reflete a igualdade de quem o penetra, um produto de museu no qual Östlund manipula como objeto de estudo a outra das questões da sua obra. Até que ponto a arte pode ser considerada arte? Ou simplificando, o que é a arte?
E toda essa arte tem consequências, assim como os atos do protagonista, Christian (Claes Bang), que concentram todos esses confrontos invocados numa só persona. Aquele, e já referido, medo social, âncora das nossas relações afetivas assim como comunicativas, que elevam a um certo grau de passividade. Até porque existe dentro de nós um certo Christian, que se esconde em plataformas para expressar os seus sentimentos mais primários, no sentido em que essas emoções são eventualmente subvalorizadas por uma comunidade artística, pensante que anseia atingir o pedestal da racionalidade, quer do real, quer do abstrato.
O Quadrado é um exemplar de um filme subjugado ao debate dele próprio, pronto para o dialogo com o espectador, entre espectadores e sobretudo depois do seu visionamento. São as questões sugeridas pela obra que nos tornam aptos para as suas interpretações; porém, Östlund tenta acima de tudo obter essa função, fugindo da pedagogia infantil e da essência solipsista que invade a comunidade arthouse, mas foge, também, da objetividade.
O Quadrado prolonga-se até não possuir mais uma questão nova a indicar, torna-se com o tempo obtuso, fácil e previsivelmente moralista, como se toda esta galeria resumisse a uma fábula, citadina e moderna que exorciza a realidade como a vemos. Depois vem a obsessão de Östlund pelas escadas, a técnica e como filmá-las, uma tese na qual não procuramos aqui dar respostas, mas que preenche em demasia uma obra sobretudo comunicativa que oscila pelo simples ilustrativo.
Hugo Gomes, c7nema.net

  


A arte e as suas ambivalências
Foi com "O Quadrado" que o sueco Ruben Östlund arrebatou a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2017: uma crónica, entre o sério e o irónico, sobre as nossas relações com a arte e os objectos artísticos.
De que falamos quando falamos de arte contemporânea?... A acreditar no filme "O Quadrado", falamos de uma grande confusão, tanto no plano individual como institucional. Ou seja: o filme do sueco Ruben Östlund, vencedor da Palma de Ouro de Cannes (no passado mês de Maio) lança uma série de pistas, umas realistas, outras mais ou menos burlescas, para nos confrontar com as ambivalências do nosso mundo mediatizado.
Tudo se passa em torno da personagem do director (Claes Bang) de um museu de Estocolmo que se descobre assombrado pelos mais variados incidentes, desde a carteira que lhe roubam na praça do próprio museu até à conservação de algumas insólitas peças que tem em exposição... Isto sem esquecer a presença insólita, misto de sedução e ameaça, de uma jornalista (Elizabeth Moss) que o quer entrevistar.
Östlund combina tudo isso numa teia a que não podemos deixar de reconhecer agilidade e alguns efeitos desconcertantes. Não parece que o seu filme esteja muito empenhado em "dizer" algo de muito consistente sobre aquilo que coloca em cena (a integração do tema dos refugiados soa mesmo a demagogia fácil). O certo é que, por vezes, em grande parte através dos actores, "O Quadrado" consegue expor a falsidade intrínseca de tantas relações do nosso tempo, supostamente construídas em nome da transparência e do "progresso".
[...]
João Lopes, rtp.pt/cinemax/